Responsabilidade e Reciprocidade

Valores Sociais para um Futuro Sustentável

Diferentes visões, culturas e formas de atuação social foram reunidas em um evento internacional que refletiu sobre os valores que devem pautar uma sociedade sustentável. No Congresso Internacional Responsabilidade e Reciprocidade, o ser humano sustentável foi evidenciado como garantia de futuro da humanidade.

* Reportagem "Valores Sociais para um Futuro Sustentável", de Clarissa Miranda, publicada na edição 8 da revista Performance Líder (I semestre de 2012), páginas 122 a 127.

Os conceitos de responsabilidade e reciprocidade, quando combinados, permitem uma convivência verdadeiramente sustentável dos homens entre si e com o planeta. Foi o que demonstraram as mesas-redondas, palestras e apresentações de trabalhos realizados nos dias 4 e 5 de novembro de 2011 durante o congresso promovido pela Fundação Antonio Meneghetti e pela Antonio Meneghetti Faculdade no Centro Internacional de Arte e Cultura Humanista Recanto Maestro (RS). Por sua proposta, o Congresso Internacional “Responsabilidade e Reciprocidade: valores sociais para uma economia sustentável” fez parte do calendário de eventos realizados ao redor do mundo pelos denominados grupos principais em preparação à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que o Rio de Janeiro receberá neste ano [ver reportagem sobre o evento nesta edição]. A abertura do congresso, que contou com a participação de aproximadamente 700 pessoas, deu-se com a exibição de uma conferência em vídeo exclusiva com o senador Cristovam Buarque. A fala do parlamentar colocou um desafio a todos do público: “Sustentabilidade é um conceito que ainda temos que inventar; que ainda está em elaboração. Não está claro como se define perfeitamente a ideia de sustentabilidade. Não há um consenso, nem totalidade do assunto. Sustentabilidade na sua plenitude, não apenas do ponto de vista da depredação da natureza, mas do ponto de vista das relações humanas. Como são as relações humanas sustentáveis?”.

As respostas para estes questionamentos vieram na forma das diferentes experiências relatadas por cada um dos palestrantes convidados. Foi o caso dos representantes de iniciativas que vêm contribuindo para a formação de jovens e adultos em diferentes Estados do Brasil e que tiveram voz na mesa redonda intitulada “Responsabilidade Social”. Para relatar casos práticos de atuação neste campo, estiveram presentes a superintendente-executiva do Instituto Jutta Batista da Silva, Marlene Zandonadi; a diretora-presidente do Instituto Elisabetha Randon Pró-Educação e Cultura, Maurien Randon Barbosa; o gerente-geral administrativo-financeiro da Fundação Projeto Pescar, José Francisco Miranda da Cunha; e, como mediadora, a diretora do Instituto MC Educação Social, Maria Cecília Kother. Dando o tom que se seguiria nas explanações dos demais convidados da mesa, Maria Cecília lembrou o papel de cada cidadão na construção de uma realidade mais sustentável: “A responsabilidade social, antes de ser social, é individual.” O papel corporativo diante do desafio do desenvolvimento sustentável esteve em debate na mesa-redonda “Organizações e Sustentabilidade: discurso ou prática?”, que foi mediada pelo presidente do Grupo Processor, Cesar Leite. Integraram a mesa o presidente do Conselho Estratégico da Associação Brasileira de Construção Industrializada de Concreto, Carlos Gennari; a presidente da Holding Partsil S/A, Edna da Silva; o diretor comercial da Marelli Móveis Ltda., Rudimar Borelli; e o diretor-presidente das empresas PIVA Comércio e Indústria Ltda., Juarez Piva, que é também um dos fundadores da FeiraInternacional de Tecnologia para o Meio Ambiente (Fiema Brasil), realizada a cada dois anos na cidade de Bento Gonçalves (RS). Segundo o mediador desta mesa, Cesar Leite, hoje é explícito que a sustentabilidade é uma prática válida e está cada vez mais presente nas organizações, tornando-se uma preocupação quase mandatória ao mundo corporativo. “Estas práticas geram uma construção fantástica e é possível fazer resultados com sustentabilidade, o que não é tão simples quanto parece. Não podemos ser ingênuos: há regras que são criadas há milhares de quilômetros do Brasil e nos são impostas. Estamos falando de uma dinâmica que reduz nosso diferencial competitivo frente aos mercados. Trata-se de perceber que sustentabilidade também é uma construção econômica e que existe um Brasil maravilhoso que faz e realiza.” Por meio do tema “O Brasil em um Contexto de Desenvolvimento Sustentável”, entrou em pauta no congresso a questão do agronegócio.

Lembrando que 80% dos municípios brasileiros hoje dependem da atividade agrícola, o produtor rural e então vice presidente de Finanças da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Ademar da Silva Jr., mediador da mesa redonda, deu início ao debate. “Como vamos gerar emprego, gerar divisa e desenvolvimento para o campo e para a cidade com sustentabilidade com equilíbrio, com esta responsabilidade?”, questionou. Entre os debatedores estavam o deputado federal Nelson Marchezan Jr.; o presidente da AgroFoletto, Almir Foletto; e o pesquisador da Diretoria de Planejamento Territorial da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Arnaldo Carneiro Filho. Cada um dos convidados da mesa trouxe, a seu modo, uma contribuição para a resolução de tão complexa equação. Verdadeiro motor da economia brasileira, o agronegócio mostrou-se um setor capaz de dar lições em termos do que seria sustentabilidade – principalmente porque está diretamente relacionado ao que é um dos três pilares desta, o aspecto ambiental. O primeiro dia de debates teve como conferência de encerramento a apresentação do presidente-executivo da Fundação Odebrecht, Mauricio Medeiros. Ao falar desta que é uma das mais antigas fundações empresariais do Brasil – mantida pela Organização Odebrecht –, Medeiros explicou de que forma foi possível concretizar em ação e resultados os ideais do dr. Norberto Odebrecht [ver entrevista nesta edição] por meio de um programa de desenvolvimento sustentável no mosaico de áreas de proteção ambiental no Baixo Sul da Bahia. Nos projetos da Fundação Odebrecht, o conceito da sustentabilidade torna-se parte do dia a dia da população, resultando em ampliação da qualidade de vida local. Na conclusão de sua fala, ao explicar o significado do logotipo da entidade, que traz o desenho estilizado de um palco, Medeiros deixou um estímulo ao público presente no congresso: “Todos juntos podemos realmente ser mais fortes e construir este palco hipotético onde não importa o instrumento que você toque. O importante é que tudo traz em harmonia a lógica de que temos de tirar a nossa população jovem da situação de pobreza e miséria para fazermos um país diferente, um país exemplo para o mundo.

Todos nós sairemos vencedores”. Além das palestras, mais de cem artigos acadêmicos de todo o País foram apresentados em diferentes salas de debates. A reflexão teórica esteve presente, ainda, na mesa-redonda “Ética e Responsabilidade”, que reuniu o doutor em Letras, escritor, tradutor e livredocente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), Donaldo Schüler; o desembargador (de 1988 a2000), advogado e professor, Décio Erpen; e o advogado e presidente do Instituto de Estudos Empresariais, Ricardo Gomes, que mediou o debate. Para Schüler, o aspecto ético percebido na responsabilidade social passa pelo diálogo entre os povos. “A responsabilidade vem de responder. Como esperar que alguém responda quando eu não o deixo falar?”. Erpen, por sua vez, sublinhou que a construção de uma sociedade ética passa pelo esforço individual de cada cidadão de construir um futuro melhor: “O homem ético, frente ao Poder Público, frente ao seu cidadão, é um homem que deve aprender a conviver, procurar a cultura da paz, cumprir as leis”. perspectiva internacional dos debates deu-se com a presença de palestrantes de diferentes continentes. A responsável sênior pelo setor de Relações Públicas do Programa Impacto Acadêmico – mantido pela Divisão de Extensão do Departamento de Informações Públicas da Organização das Nações Unidas (ONU), com sede em Nova York (EUA) –, Nathalie Leroy, trouxe informações sobre esta iniciativa que reúne instituições de ensino superior de todo o mundo em torno de objetivos comuns, entre os quais o desenvolvimento sustentável.

Leroy falou dos caminhos vislumbrados pela ONU para o desenvolvimento sustentável no momento em que o número de pessoas vivendo no planeta atinge uma marca histórica: “O mundo de 7 bilhões de pessoas é um desafio, e também uma oportunidade”. Discutindo o tema central do congresso, a última mesa-redonda, intitulada “Responsabilidade e Reciprocidade”, trouxe a diretora da Cátedra de Ontopsicologia da Universidade Estatal de São Petersburgo (Rússia), Victoria Dmitrieva; a representante da Associação Internacional de Ontopsicologia (AIO - Itália) junto às Nações Unidas, Pamela Bernabei; o presidente da Fundação Antonio Meneghetti e da empresa Calçados Beira Rio S/A, Roberto Argenta; mediados pelo diretor da Fundação Antonio Meneghetti e vice-presidente do Grupo Meta, Wesley Lacerda.

Bernabei apontou que o Brasil tem hoje lições a ensinar ao mundo em termos de sustentabilidade. Usando, entre outros, o exemplo do fomento nacional à produção do álcool combustível, a abundância da natureza deste país e a criatividade e inovação tipicamente brasileiras, a palestrante afirmou aos presentes: “Vocês têm no DNA a velocidade da sustentabilidade. Durante a Rio+20, o Brasil terá muito o que ensinar ao mundo”. Em sua fala, ao mediar esta última mesa-redonda, Wesley Lacerda, economista por formação acadêmica, trouxe uma síntese do pensamento que foi se construindo, com o apoio do público, nos dois dias de debates. “Quando se fala de responsabilidade e reciprocidade, são atributos do ser humano. Quem pode ser responsável e recíproco é a pessoa. Pessoa é aquela que pode ser para si. Então, a nossa discussão é impossível se nós não discutimos o ser humano. Nós só podemos discutir como fazer uma economia sustentável se nós temos um ser humano sustentável.”

A plateia, que manteve um atento e profundo silêncio nos momentos dos debates, acompanhou os diálogos destas lideranças e intelectuais como quem tem a oportunidade de, por algumas horas, vislumbrar o que pode ser o futuro do planeta se temas como a sustentabilidade, os deveres de cada cidadão e o exercício da responsabilidade social forem postos realmente em prática. O próprio local em que ocorreu o congresso permitiu ao público a percepção de como podem se dar os diferentes resultados da sustentabilidade aplicada ao dia a dia. O distrito Recanto Maestro foi constituído a partir de um projeto de sustentabilidade integral desenvolvido desde 1988 pela Associação Brasileira de Ontopsicologia em parceria com a Associação Internacional de Ontopsicologia, uma ONG em status consultivo especial junto ao Conselho Econômico e Social (ECOSOC) das Nações Unidas.

O Recanto Maestro e os projetos ali desenvolvidos já foram apresentados em importantes sedes internacionais, com destaque para a Innovation Fair, realizada em paralelo à Annual Ministerial Review, do ECOSOC, em Genebra (Suíça), em 2007; no evento “O Brasil do Milênio em Paris”, realizado no Conselho Econômico, Social e Ambiental da República Francesa, em 2010; e, em 2011, no Palácio das Nações, sede da ONU em Genebra, durante o evento “A nova geração dos BRIC e a sua futura responsabilidade social no mundo globalizado”.

O Congresso Internacional Responsabilidade e Reciprocidade foi apoiado pela revista Performance Líder e por importantes órgãos governamentais, associações empresariais e entidades do terceiro setor. Além disso, este evento preocupou-se em mostrar seu apoio aos movimentos internacionais Pacto Global, Impacto Acadêmico e Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Um sinal de que, quando homens e mulheres, de diferentes esferas, culturas, classes e nacionalidades, reúnem-se para pensar a humanidade utilizando como critério o próprio humano, está assegurado o desenvolvimento civilizatório, no futuro do tempo, neste planeta.

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